Trabalhar, pagar, comer, viver, morrer


Deve haver um jeito melhor de se viver. Como ultimamente tenho duvidado de quase tudo, também duvido da vida como está posta. Suspeito de que alguma coisa esteja errada com o mundo, conosco, e com a vida.

Trabalhar para ganhar o salário no fim do mês e gastá-lo pagando contas, mesmo as lícitas como da comida ou energia, não pode ser o projeto final da humanidade. Sinto-me profundamente incomodado com esta realidade e tenho me perguntado sobre o que e como fazer algo que me leve à uma nova forma de viver.

Eu sei que pessoas com transtornos de ansiedade e depressão como eu tem um “bicho carpinteiro no bumbum" (como diz minha mãe), que não as deixam quietas, satisfeitas, e plenamente realizadas em um lugar só, mas eu acho que estou chegando ao limite.

Trabalhar-pagar-trabalhar-pagar não serve mais pra mim, estou procurando algo mais significativo para colocar no lugar deste ciclo tragicamente viciante. É claro que há pessoas que estão satisfeitas, fazem coisas boas, vibram, e ainda ganham para isso. Eu também já fui assim, mas não sou mais. Sei o que aconteceu, mas não sei a razão e nem aonde isso vai parar.

Voltando ao assunto deste texto, reflito sobre a busca por significado para minha relação com as coisas materiais da vida diária , e quero dividir com você o que já comecei a fazer, mesmo sem muito planejamento.

Primeiro, eu doei muitas roupas. Muitas. Algumas que nem tinha usado, novinhas. Ainda tenho para doar. Meu guarda-roupas cheio me constrange, me faz pensar: Como gastei tanto dinheiro para comprar as mesmas coisas de cores diferentes? Como pude pagar juros? Como fui tão infantil? Doar é bom, me deixa mais feliz do que comprar.

Segundo, eu aprendi a aceitar as doações sem constrangimento. É usado? Cabe em mim? Ótimo! O gesto bondoso de alguém me alcança, e eu fico feliz também. É a minha vez de ser abençoado. Assim uso menos dinheiro e ainda contribuo com o meio ambiente.

Terceiro, procuro uma ocupação na qual possa usar minhas forças, meus músculos, minhas ideias e meu suor, e possa ver o “fruto do meu próprio trabalho". Na linguagem do momento isso se chama empreendedorismo, mas vamos simplificar, o que desejo é um caminho simples (não fácil), algo que esteja no meu sangue, que me faça gastar minhas energias e usar o fruto com cuidado e alegria. Não quero galgar lugares de destaque, ultrapassar alguém na corrida por cargos e posições, e não desejo o salário mais alto.

O quarto é o mais conceitual, acho que totalmente conceitual e ainda é uma pergunta: O que significa vencer na vida? Já ouviu alguém dizer “Já estou com a vida ganha"? Eu já, e penso nisso constantemente. Aos cinquenta anos eu já deveria estar com a vida ganha… Estou ou não estou? O que isto quer dizer? Que relação essa questão tem com os bens materiais e o dinheiro? Como medir esse ganho? Confesso que estou debruçado sobre essas questões, e preciso respondê-las logo. Por um lado ela é urgente e causa ansiedade, e por outro sinto um cheiro de que há diante de mim uma grande oportunidade de mudança. Isso finalmente me afeta positivamente, faz-me sair do lugar (meu quarto com as janelas e cortinas fechadas), e me faz sonhar um pouco com algo bom e prazeroso.

Até o próximo capítulo dessa odisseia.