Eu, eu mesmo



Meu nome é Daniel. Primeiro fui músico. Toquei teclado por muitos anos na igreja, fui dono e professor de escola de música, e participei de várias bandas e conjuntos evangélicos. Depois decidi ser pastor. Fui para o seminário, estudei Teologia por quatro anos e fui ordenado para o ministério cristão de pastoreio.

Antes dos vinte e cinco anos comecei a pastorear em igrejas locais e fiz isso por vinte anos. Contando o tempo de seminário e de estágios em congregações são cerca de vinte e cinco anos na atividade pastoral. Filho de pastor, frequentei a igreja desde o meu nascimento e participei ativamente de suas organizações durante muitos anos.

Desde 2013 enfrento os efeitos adversos e as difíceis consequências do burnout e da depressão, enfermidades que transformaram e continuam transformando profunda e definitivamente a minha vida, e depois de escrever bastante sobre essa experiência (inclusive um livro) quero declarar a quem interessar que meu nome é Daniel, e só. Eu sei como as pessoas me veem, e é impossível controlar a visão delas, mas hoje sou apenas Daniel, ou melhor, Niel.

Estou me esforçando para compreender a questão com maturidade. Uma imagem construída (por mim ou não) ao longo de quase quarenta e cinco anos de vida não muda de uma hora para outra, ou não muda nunca. Para as pessoas eu sou evangélico, tecladista da igreja e pastor (gente boa, educado, tranquilo, paciente...).

Porque eu gostaria que as pessoas me olhassem de modo diferente eu não sei ao certo. Por que isso é importante para mim? Eu devo esperar ou desejar isso? É saudável? Não sei. É melhor eu não esperar pelas pessoas? É melhor eu acreditar em mim mesmo e no que acredito que sou e me tornei, sem esperar algum reconhecimento público? O melhor é eu viver e ser o que acredito ser, mesmo que as pessoas não notem? Continuo sem saber e um pouco cansado de me importar com isso.

Até mesmo da suposta (ou pretensa) irrepreensibilidade eu cansei. Cansado da plateia, com suas vaias e aplausos, me vejo hoje sem a mínima intenção de ser correto. Talvez o lugar sem público que procuro seja perigoso. Não é recomendável viver como se não houvesse o próximo, mas o meu caso é produto de um adoecimento, o que me confere uma certa margem para erros ou exageros até que as coisas fiquem mais claras e definidas. Portanto a retidão, neste momento, não está na minha pauta, pelo menos não a que é observada pela plateia.

Cansado do teatro estou. Cansado da vida pública estou. Cansado do auditório estou.

Por uma dessas coincidências que acontecem poucas vezes na vida acabo de colocar os olhos na última página do Segundo Caderno do jornal O Globo do dia 9 de fevereiro de 2017. A reportagem que me chama atenção trata de uma produção do cinema alemão concorrente ao Oscar de melhor filme estrangeiro. Nome do filme: Filha careta, pai subversivo.

O pai, professor de música, quer "aproximar-se e desconstruir a filha estilo corporativo século XXI", que trabalha em uma grande empresa de petróleo, vive "mais orgulhosa do crachá do que do sobrenome", é uma profissional "estressada e robotizada, escrava das regras empresariais". O pai é um "maluco beleza", não tem medo do ridículo, meio excêntrico, é um "subversivo convicto" e "se diverte com a caretice alheia".

O choque desses dois mundos, escreve a repórter, gera situações tão "angustiantes como hilariantes". Aqui está a questão: Esses dois mundos vivem em mim, e geram situações mais angustiantes do que hilariantes. Achei incrível encontrar essa matéria exatamente quando escrevo este texto. O filme descreve essa luta que acontece dentro de mim todos os dias. O Daniel é a filha, robotizado e orgulhoso do crachá; o Niel é o pai, maluco beleza, sem medo do ridículo, e que se diverte com a caretice de qualquer um.

Confesso que esse pai me atrai muito. Gosto da ideia de liberdade e sonho em ter menos medo do ridículo e me divertir mais. Ainda tenho tempo para isso e sei que é um processo lento e profundo. Não existe certeza absoluta de que estou no caminho certo, apenas a certeza de que estou caminhando, e isso já é muito bom.

Eu, eu mesmo, sou um caminhante agora. Reconhecido ou não começo a olhar devagarinho para o tanto que já caminhei, e quando consigo fazer isso fico satisfeito com o que vejo. Niel caminha, é o meu nome.

Você não sabe
O quanto eu caminhei
Pra chegar até aqui
Percorri milhas e milhas
Antes de dormir
Eu nem cochilei
Os mais belos montes escalei
Nas noites escuras
De frio chorei

A vida ensina
E o tempo traz o tom
Pra nascer uma canção
Com a fé do dia-a-dia
Encontro a solução

(Toni Garrido/Bino Farias/Da Ghama)


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