Caminhando, rindo ou chorando


Há alguns dias atrás publiquei um texto triste. Era eu mesmo, como sempre soube ser e fazer. Quando eu escrevo eu coloco meu corpo e minha alma. Era assim também quando eu pregava na igreja. Por um lado isso cativava as pessoas e por outro eu me revelava demais.

Como não sei fazer de outro jeito continuo fazendo do jeito que sei, e mais do que isso: É do jeito que me deixa satisfeito. É como o artista diante de sua obra, quando não está perfeita aos seus olhos não há satisfação e quando ele mesmo a considera perfeitamente concluída se enche de contentamento.

Para mim o texto perfeito é aquele que brota do que sinto, do que experimento e do que vejo. Muito mais do que sinto. Sentir é uma condição inegociável pra mim.

Assim, encontrei na terapia um ambiente (e pessoas) muito apropriado para sentir o que sinto (perdão pela redundância) e falar como me sinto, sem constrangimentos.

Assim, tenho dificuldades para voltar a pregar na igreja, já que não tenho ideia do que pode acontecer.

Assim, tenho facilidade para fazer amigos, pois não tenho nenhuma reserva ou preconceito com relação às pessoas (principalmente novos amigos).

Assim, tenho na depressão a desculpa perfeita para sentir o que quiser, pois a culpa da minha montanha russa sentimental sempre será dela.

Assim, tenho dificuldades para controlar meus sentimentos. Nem sei se quero, se é necessário, prudente ou saudável.

Assim, apesar da aparente contradição, tenho muita dificuldade para manifestar minhas emoções em certos ambientes ou situações.

Assim, torço para que minha vida continue marcada pela emoção. Não quero ser um poste. Quero rir ou chorar sem ter que dar explicações. A única explicação possível é “eu sou assim mesmo", não se preocupe.

Na igreja aprendemos sobre Deus com os olhos do pensamento grego. É o Deus que não se altera, que se controla diante das mais adversas situações. É o Deus da reverência e que não deixa criancinhas rirem dentro do templo. Mas o Deus da Bíblia é hebreu. Ele manda setas de fogo, fica irado, triste, impaciente, se deleita com os sacrifícios, se alegra e abençoa. Como eu gostaria de ser como Deus, sentir qualquer coisa sem me preocupar com os outros.

Apesar de ter avançado bastante nesse aspecto da minha vida, esse é uma contradição que eu gostaria muito de resolver. Rindo ou chorando eu gostaria de ser mais livre. Lembro-me de ter ido a um velório de uma pessoa muito querida, e ao chegar diante do corpo no caixão minha esposa falou ao meu ouvido: Pode chorar, amor… Nem chorar eu conseguia. Veja que coisa mais absurda: O que vão pensar de mim? Mas eu estava em um lugar de choro! Não pra mim. Eu era o cara que não se alterava.

Lá se vão cinco anos desde o início dos três T’s (Temporal, Terapia e Transformação), e ainda tenho um caminho a perseguir, mas já mudei bastante.

Rindo, chorando, alegre, triste, nervoso, irritado, calmo, aqui vou eu, caminhando e cantando, sem lenço e sem documento.

Sabe de uma coisa? É muito bom.

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