Já participei de diversos encontros para discutir a criação de um conselho de pastores e líderes evangélicos. Inicialmente alguns tentam controlar as coisas para que a temática seja a da comunhão e da troca de experiências visando o incentivo e o cuidado mútuos, mas apesar desse esforço inicial, noto que as coisas acabam “descambando" para o que, até então, estava escondido: Com algumas exceções, as discussões giram em torno das vantagens que pastores e igrejas podem alcançar do poder público através dessas organizações e de sua influência na esfera da política.


Tenho sido convidado constantemente para esses encontros, mas sinceramente, não me sinto atraído, nem animado, e muito menos vocacionado para tal coisa, pois já sei o que vai acontecer lá, e o que querem de fato os evangélicos. Os discursos são os mesmos de sempre: asfaltar a rua da igreja, patrocinar as festas da igreja, emprestar palanque e som, conseguir recursos da prefeitura para eventos religiosos, e pressionar autoridades para aprovar leis que favoreçam as igrejas. “Precisamos ter voz na prefeitura", dizem eles.

No final das contas, a pergunta que estão fazendo é: “O que o governo municipal tem a nos oferecer?"; ou “como podemos ser beneficiados através de ações do poder público?". Eu, pessoalmente, acho que a pergunta está errada. Nós, como evangélicos, aqueles que foram transformados pela graça de Deus, que ouvimos Jesus dizer “mais bem-aventurado é dar do que receber", deveríamos oferecer o que temos de melhor à prefeitura, e não pedir.

Deveríamos oferecer a igreja para a prefeitura realizar ações para a comunidade, deveríamos oferecer talentos e dons a serviço das pessoas, deveríamos oferecer nossa oração ao prefeito e aos funcionários municipais, deveríamos oferecer até nossos próprios recursos. A pergunta correta é: “Do que estão precisando?"; “como podemos ajudá-los a fazer o que beneficia a população?"; “Sr. Prefeito, queremos ajudar!".

Pode até parecer demagogia, ou utopia. No entanto, nós evangélicos (incluindo os pastores e líderes) não podemos nos comportar como uma empresa que se candidata a um contrato comercial com a prefeitura. A empresa, por sua natureza, visa o lucro, e a igreja, por sua natureza, deveria se preocupar em repartir a Graça que recebeu (de graça). Alguém pode até argumentar: “Mas nós precisamos da prefeitura e de recursos para realizar algumas coisas". Não, não precisamos. Precisamos da prefeitura como qualquer cidadão, como qualquer associação, como qualquer entidade. Precisamos da prefeitura, mas não como privilegiados acima de qualquer um. Por que a prefeitura asfaltaria a rua da igreja e deixaria os vizinhos da outra rua chegando em casa na lama? O que nós temos que eles não tem? Na verdade, o que nós temos nos obriga a dizer “asfalta primeiro a rua deles!". Para não ficar aborrecido e nem constrangido diante de questões como essas eu não participo.

No dia em que o assunto dos encontros for o que temos a oferecer eu vou. Por enquanto, prefiro me unir a uns poucos apenas para ler a Bíblia, orar, meditar, compartilhar, rir, chorar, tomar café, ouvir uma bela meditação, e refletir sobre o que temos de melhor a oferecer. Durmo melhor assim.

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