A Igreja despida

Tire toda a imagem da igreja. Tire seu templo, tire sua fachada, tire seu banner. Tire também sua “identidade visual", tire seus efeitos especiais, sua bela iluminação, seus folhetos, seus folders, seus cartazes, suas cores e sua logomarca.

Vamos despir a igreja de seu site, dos blogs, de seu perfil no Facebook, no YouTube, no LinkedIn, no Picasa e no Twitter. Vamos deixar a igreja nua.




Vamos tirar a maquiagem de domingo, vamos deixar de editar os vídeos dos cultos para cortar cenas que conspiram contra nossa imagem. Vamos parar de divulgar nossas conquistas e deixar de transmitir a ideia de que estamos na vanguarda gospel. Melhor: Vamos destruir nosso templo, vamos deixar de ter um lugar, um horário, e um programa. Aliás, vamos deixar de realizar programações, de fazer anúncios, de fazer faixas, de fazer propaganda de nós mesmos.

Vamos parar de vender CDs. Vamos parar de pagar astros do gospel fajuto. Vamos parar de usar os ídolos evangélicos (tão nocivos quanto qualquer outro!), vamos parar de “rechear" nossos cultos e eventos com linguiça de terceira categoria. Vamos despir a igreja de tudo o que não foi feito para amar.

Recebi, do meu amigo Pb.Sérgio, um texto de autoria de Martha Medeiros, que é jornalista e colunista de jornais e revistas no Brasil. O texto, intitulado “Vende-se tudo", fala sobre o valor das coisas. Eis alguns trechos:

“... aprendi a irrelevância de quase tudo o que é material. Nunca mais me apeguei a nada que não tivesse valor afetivo. Deixei de lado o zelo excessivo por coisas que foram feitas apenas para se usar, e não para se amar. Hoje me desfaço com facilidade de objetos, enquanto que torna-se cada vez mais difícil me afastar de pessoas que são ou foram importantes, não importa o tempo que estiveram presentes na minha vida".

"... só possuímos na vida o que dela pudermos levar ao partir, é melhor refletir e começar a trabalhar o DESAPEGO JÁ! Não são as coisas que possuímos ou compramos que representam riqueza, plenitude e felicidade. São os momentos especiais que não tem preço, as pessoas que estão próximas da gente e que nos amam, a saúde, os amigos que escolhemos, a nossa paz de espírito".

Pensei em mim, pensei na igreja. Penso que precisamos reformar a igreja para que ela dependa menos das coisas materiais. Precisamos voltar às pessoas!

Precisamos de afetos, de amizades, de companheirismo, de comunhão, de alegria, de choro, de calor humano, mesmo que seja sem templo. Precisamos despir a igreja dessa dependência das coisas. A igreja se tornou “coisólatra"!

Deixemos de lado nossa imagem, e apreciemos mais nossos amigos e irmãos. Vamos realizar apenas cultos, vamos cantar, vamos estudar a Bíblia, vamos orar, vamos nos reunir com os irmãos para experimentarmos a alegria da comunhão despropositada.

Sei que não é fácil fazer isso, e que é muito difícil ensinar as pessoas a participarem de uma comunidade que só quer ser Corpo de Cristo. Sei que precisamos fazer muitas coisas, mas sei que podemos ser uma igreja que entende claramente o que é passageiro (coisas) e o que é eterno. Usemos as coisas, mas valorizemos as expressões espirituais; usemos o templo, mas valorizemos que está dentro do templo e o que estamos fazendo nele; usemos os recursos materiais, mas que o coloquemos a serviço do Reino.

Fique tranquilo, não precisamos despir a igreja, só precisamos colocar sua imagem e as coisas em seu devido lugar: o segundo.

Daniel Jr.


Imagem: @serjosoza on Unsplash.com